Entre umas e outras

15.06.2010

Nath se finge de cool. Sexta à noite vai a uma festa da moda, em cima do seu peep toe, a roupa incrível, o esmalte incrível, muitas caras, bocas e álcool nas fotos. No dia seguinte ninguém se lembra de nada, mas está tudo no Face pra quem quiser ver.

E Nathalia se finge de morta. Dorme o dia inteiro. Toma dois Engov’s e projeta no teto branco as coisas que vão passando na sua cabeça. Poderia escrever, poderia pintar, mas teria que levantar, e isso seria muito chato.

Num sonho viu dois camelos conversando. Eles estavam andando no Aterro. Ela não conseguiu ouvir o que diziam, e um deles estava com uma bolsa xadrez pendurada na corcunda. Será que foi uma alusão ao Marcelo Camelo? Tipo, um é o Marcelo, e o outro, o de bolsa, a Mallu. Porque quando eles se casarem ela também vai ser um Camelo. E riu, riu muito. As melhores risadas são sempre quando está só.

Esqueceu de tomar a sibutramina hoje – ou ontem? – deve ser por isso que está com fome. Já começa a sentir o mau cheiro das axilas, pra não falar de outras partes, os dentes já estão ásperos – dá pra sentir com a língua. Nathalia gosta dessa parte, quando fica realmente suja. É muito difícil ficar suja. Já pensou algumas vezes nisso, como as pessoas são impedidas de ficarem sujas. Não só as pessoas, mas tudo, as coisas, os animais. Como se o natural fosse a limpeza, enquanto é justamente o contrário. Se alguém pedir que explique, não vai conseguir, mas se sente bem assim. O cabelo está um novelo, oleoso, e o esmalte descascando.

Pensa no Diego. Já está um pouco cansada de pensar nele, mas é o que tem. Um dia na cama ele diria que se sente muito sozinho naquele apartamento, e que eles poderiam morar juntos. Ia ficar na dúvida se ele estaria falando sério, mas logo ia descobrir que sim. Iam se casar. É um sonho antigo que voltou faz pouco tempo. Não na igreja, porque seria muita cara de pau com Deus, no civil mesmo, mas com festa e tudo que tem direito. O vestido ia ser branco, claro, mas curto, assimétrico, justo, os sapatos coloridos, os cabelos soltos, o véu volumoso. O buquê, de rosas vermelhas, ou alguma coisa diferente que achasse por aí. Ia chamar todo mundo, quem merece, porque gosta, e quem não merece, pra ficar com inveja. A noite de núpcias no Copa, que nem nas novelas das 8, mas a lua de mel, um mochilão pela Europa. Finalmente ia conhecer Amsterdam.

“Vai novinha/ vai novinha…” quem foi que botou essa porra no meu celular?

- Oi Ju, e aí?

- E aí mulher, que que você ta fazendo?

- Po, to jantando.

- Tu ta off…

- É, to sem net. Tá foda.

- O Dé tá chamando geral pra ir lá pra casa dele, depois a gente vai pra algum lugar… partiu?

- Po… tá, beleza.

- 10h lá então. Leva alguma coisa.

- Tá, beleza.

- Beijo.

- Beijo.

Ainda dá tempo de tomar banho e dar um jeito no cabelo. Todas as calcinhas estão sujas, vai ter que secar no secador. O esmalte descascado vai virar estilo, e a calça se encarrega de esconder a depilação pendente.

E lá vai Nath se fingir de cool. Toda incrível.

A morte dos desejos

14.06.2010

Querer provoca um movimento que transforma o que se quer em objetivo. E são esses diversos movimentos provocados pelos diversos quereres do cotidiano que definem a vida

Os meus desejos me matam. São pragas que vão me consumindo aos poucos, numa morte lenta e dolorosa, porque não há pesticida. O desejo de comer um Mc Big Ultra Super com Milk Shake de chocolate. O desejo de um corpo, de sentir e provocar desejo. E olhares brilhantes, eu te amo num telefonema no meio do dia  pra matar a saudade, um pouco de colo quando o dia fosse ruim, e quando fosse bom também. Desejo de poder comprar o que preciso, de não abrir mão das minhas necessidades – desejo de satisfazer necessidades. Desejo, necessidade, vontade.

Ora, mas todo mundo tem desejos. Lute, corra atrás, tenha fé, enfim, o caminho natural de todo desejo é a realização. Nasce, cresce, se desenvolve, pode se reproduzir até, e morre. A realização é a morte do desejo. Então mate sua fome. Mate sua sede. Está morrendo de tesão? Mate quem está te matando.

Eu fico aqui definhando, sentindo não só as pontadas e a febre do início, mas  sinto como se estivessem me corroendo, deve ser o estágio final. Mas, ora, alguém deve estar se perguntando, porque eu não mato os meus desejos? Eu não posso. Para cada um dos meus desejos há um não bem grande acompanhado de uma boa justificativa, que impossibilita qualquer tentativa de negociação. É, eu sei, muito cruel. Aliás, essa pequena palavra – nem quero dizê-la novamente – provoca as piores pontadas, eles devem sentí-la.

Eu precisaria que sofressem uma morte prematura e inexplicável. Tentei diversas vezes, e houve uma vez em que pensei que tivesse finalmente conseguido. Fui feliz. Era só necessidade, vontade. Planejava, organizava, e não sentia nada. Me movimentei muito mais, vivi muito mais, senti a vida de verdade pela primeira vez. Mas os desgraçados sofrem de catalepsia.

E agora já tão debilitada, não me resta mais nada, mesmo que pudesse fazer alguma coisa, já não tenho forças. Vou tomar um Lexotan e esperar. Ainda tenho um pouquinho de esperança – essa também não morreu – de ver quem vai primeiro.

Edredom e cia.

07.03.2010

Hoje eu passei o dia inteiro atrás de um abraço. Às vezes isso acontece, um estrangulamento entre o peito e a garganta, as lágrimas prontas pra explodir, e a sensação de que é agora, pronto, a hora derradeira. E aí eu olho de novo para os lados e nada, ninguém. Tento me chegar aqui, ou ali, arrumar um contato físico, braços, de preferência grandes e masculinos, envolventes, mas nada, ninguém. Geralmente neste ponto o aperto aumenta, as lágrimas explodem, mas não, eu ainda estou aqui.

Quem nega um abraço deve ter fortes motivos pra isso, e quem é negado sabe por quê. Se expor assim tão fragilizado, vulnerável, “oi eu to carente”, e receber um foda-se praticamente, é no mínimo cruel. Ou eu realmente devo ser uma pessoa pouco querida. Nem um pouco querida, melhor.  Porque qual é o problema de estar carente, qual é o preconceito? Ah vá, quem nunca se sentiu um menor abandonado? Tudo bem, eu me sinto assim todos os dias, mas só de vez em quando ficam sabendo. E ainda não têm o mínimo de tolerância. Ok então, eu sou desprezível. Não se aproximem deste ser nojento e abominável.

Estou ganhando um abraço quentinho agora do meu edredom. Vou dormir, mais um dia, só, sem contato com corpos humanos, exceto esbarrões, membros que se encostam involuntariamente em ônibus e metrôs, e pisadas no pé.

Boa noite.


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