Nath se finge de cool. Sexta à noite vai a uma festa da moda, em cima do seu peep toe, a roupa incrível, o esmalte incrível, muitas caras, bocas e álcool nas fotos. No dia seguinte ninguém se lembra de nada, mas está tudo no Face pra quem quiser ver.
E Nathalia se finge de morta. Dorme o dia inteiro. Toma dois Engov’s e projeta no teto branco as coisas que vão passando na sua cabeça. Poderia escrever, poderia pintar, mas teria que levantar, e isso seria muito chato.
Num sonho viu dois camelos conversando. Eles estavam andando no Aterro. Ela não conseguiu ouvir o que diziam, e um deles estava com uma bolsa xadrez pendurada na corcunda. Será que foi uma alusão ao Marcelo Camelo? Tipo, um é o Marcelo, e o outro, o de bolsa, a Mallu. Porque quando eles se casarem ela também vai ser um Camelo. E riu, riu muito. As melhores risadas são sempre quando está só.
Esqueceu de tomar a sibutramina hoje – ou ontem? – deve ser por isso que está com fome. Já começa a sentir o mau cheiro das axilas, pra não falar de outras partes, os dentes já estão ásperos – dá pra sentir com a língua. Nathalia gosta dessa parte, quando fica realmente suja. É muito difícil ficar suja. Já pensou algumas vezes nisso, como as pessoas são impedidas de ficarem sujas. Não só as pessoas, mas tudo, as coisas, os animais. Como se o natural fosse a limpeza, enquanto é justamente o contrário. Se alguém pedir que explique, não vai conseguir, mas se sente bem assim. O cabelo está um novelo, oleoso, e o esmalte descascando.
Pensa no Diego. Já está um pouco cansada de pensar nele, mas é o que tem. Um dia na cama ele diria que se sente muito sozinho naquele apartamento, e que eles poderiam morar juntos. Ia ficar na dúvida se ele estaria falando sério, mas logo ia descobrir que sim. Iam se casar. É um sonho antigo que voltou faz pouco tempo. Não na igreja, porque seria muita cara de pau com Deus, no civil mesmo, mas com festa e tudo que tem direito. O vestido ia ser branco, claro, mas curto, assimétrico, justo, os sapatos coloridos, os cabelos soltos, o véu volumoso. O buquê, de rosas vermelhas, ou alguma coisa diferente que achasse por aí. Ia chamar todo mundo, quem merece, porque gosta, e quem não merece, pra ficar com inveja. A noite de núpcias no Copa, que nem nas novelas das 8, mas a lua de mel, um mochilão pela Europa. Finalmente ia conhecer Amsterdam.
“Vai novinha/ vai novinha…” quem foi que botou essa porra no meu celular?
- Oi Ju, e aí?
- E aí mulher, que que você ta fazendo?
- Po, to jantando.
- Tu ta off…
- É, to sem net. Tá foda.
- O Dé tá chamando geral pra ir lá pra casa dele, depois a gente vai pra algum lugar… partiu?
- Po… tá, beleza.
- 10h lá então. Leva alguma coisa.
- Tá, beleza.
- Beijo.
- Beijo.
Ainda dá tempo de tomar banho e dar um jeito no cabelo. Todas as calcinhas estão sujas, vai ter que secar no secador. O esmalte descascado vai virar estilo, e a calça se encarrega de esconder a depilação pendente.
E lá vai Nath se fingir de cool. Toda incrível.