Aos poucos fui tomada por uma sensação libertadora, inédita, mas mesmo assim, identifiquei-a imediatamente. Eu sei quem sou – mesmo com o risco de amanhã não saber mais, agora eu sei. Eu sei quem sou – repito, e o ar entra até os pulmões numa respiração funda, limpa, plena, porque estou repleta de mim. Sou toda eu mesma, e ao mesmo tempo consciente de tudo que não sou. E já não tenho mais nenhum arrependimento, porque todas as cagadas que fiz, uma após a outra, me trouxeram até aqui – eu sou feita de merda. “Muito prazer, Maria, cheia de merda”. Agora enfim vou aproveitar, gozar a vida. Afinal, seguimos porque somos feitos de merda e gozo.