Querer provoca um movimento que transforma o que se quer em objetivo. E são esses diversos movimentos provocados pelos diversos quereres do cotidiano que definem a vida
Os meus desejos me matam. São pragas que vão me consumindo aos poucos, numa morte lenta e dolorosa, porque não há pesticida. O desejo de comer um Mc Big Ultra Super com Milk Shake de chocolate. O desejo de um corpo, de sentir e provocar desejo. E olhares brilhantes, eu te amo num telefonema no meio do dia pra matar a saudade, um pouco de colo quando o dia fosse ruim, e quando fosse bom também. Desejo de poder comprar o que preciso, de não abrir mão das minhas necessidades – desejo de satisfazer necessidades. Desejo, necessidade, vontade.
Ora, mas todo mundo tem desejos. Lute, corra atrás, tenha fé, enfim, o caminho natural de todo desejo é a realização. Nasce, cresce, se desenvolve, pode se reproduzir até, e morre. A realização é a morte do desejo. Então mate sua fome. Mate sua sede. Está morrendo de tesão? Mate quem está te matando.
Eu fico aqui definhando, sentindo não só as pontadas e a febre do início, mas sinto como se estivessem me corroendo, deve ser o estágio final. Mas, ora, alguém deve estar se perguntando, porque eu não mato os meus desejos? Eu não posso. Para cada um dos meus desejos há um não bem grande acompanhado de uma boa justificativa, que impossibilita qualquer tentativa de negociação. É, eu sei, muito cruel. Aliás, essa pequena palavra – nem quero dizê-la novamente – provoca as piores pontadas, eles devem sentí-la.
Eu precisaria que sofressem uma morte prematura e inexplicável. Tentei diversas vezes, e houve uma vez em que pensei que tivesse finalmente conseguido. Fui feliz. Era só necessidade, vontade. Planejava, organizava, e não sentia nada. Me movimentei muito mais, vivi muito mais, senti a vida de verdade pela primeira vez. Mas os desgraçados sofrem de catalepsia.
E agora já tão debilitada, não me resta mais nada, mesmo que pudesse fazer alguma coisa, já não tenho forças. Vou tomar um Lexotan e esperar. Ainda tenho um pouquinho de esperança – essa também não morreu – de ver quem vai primeiro.
Tags: ser?